Estou indeterminada e
isso me confunde. Não confunde os outros porque a aparência, tirando a parte do
cabelo, é sempre a mesma. Confundo os próximos com bipolarismos durante o dia,
e agora os ansiolíticos são minhas drogas diárias esticadas no criado mudo que
apagam meus pensamentos por algumas horas e é só, depois que acordo não sei
quem sou.
Quero saber mais, mas
saber de mim é uma disciplina optativa e nesse ano parece não haver mais tempo
pra nada. Só há obrigatórias e obrigações imprevisíveis. Algumas até eternas.
Despertadores, choro, remédios e confusão. Não há tempo pra mais nada e
reclamar é coisa que faço com a boca que ultimamente não anda muito ocupada. Questionar
é o que faço enquanto o telhado se apaga em questão de minutos.
Procuro metáforas para
não me expor. Desaprendi a ser sincera. Coisa difícil arrancar verdades assim,
de dentro de mim, como se não fosse doer nem um pouquinho. A armadura é leve,
mas está presa. Faz-me ágil e ao mesmo tempo dissimulada. Ninguém nota, ninguém
vê.
O que incomoda mais não
é o fato de outros enxergarem ou não, mas sim o fato de eu enxergar e não dar à
mínima (porque se importar e não fazer nada a respeito dá meio que na mesma).
Acho que não me amo mais por amar demais aos outros.
O espelho que outrora
mostrava duas, agora não mostra mais nada, só uma pintura de Picasso que ainda
não consegui interpretar. Logo eu, que me gabava humildemente de
autoconhecimento e poder de observação. Quantas tolices, desalices...
Tudo agora é reflexo e
instinto do que sobrou de humano em mim. O amor próprio que na minha vida
sempre veio à conta gotas chegou ao final do frasco, que lacrado, arremessei
contra a parede e lambi os restos entre os cacos de vidro.
Agora tenho uma língua
machucada que adormece lentamente enquanto me obrigo o privilégio do sono, que
é o que restou do cuidado que tenho por mim.
Sou bicho do mato ou
um lobisomem juvenil? Sou anjo, sou mulher? Quem sou? Ninguém mais me explica,
eu não me explico. Eu não sou.
Só. Estou.
Indeterminada.
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