Meus
dedos acordaram ácidos de palavras velhas e sujas que putrefaram ao calor do
sol de uma felicidade passageira, verdadeira, mas que se foi. Intensa, queimava
cada vocábulo não dito e até mesmo os velhos e repetidos não foram salvos de
sua intensidade. Meus últimos dias se dividiram entre o silêncio e o
apodrecimento das frases. Se dividiu entre a Carniça de Baudelaire e Mais Luz
de Antero de Quental, e eu te digo, o caminho do meio não é um dos mais
confortáveis. Entre a ânsia de dizer e saber que não é necessário só cabe a
angústia. E mais nada.
Quando
me pego entre essas reflexões me lembro daquela música que me mostrou quando já
não havia mais palavras e quando temperar com musicalidade nossas tardes vazias
e silenciosas parecia uma das últimas soluções. Aquele que fala do silêncio e
das palavras que machucam. Eu sei. Sempre soube.
Mas
agora preciso dos meus dedos podres, e pra ser irônica, do que está em minhas
mãos. Ficaram um tempo paradas fazendo coisas triviais, prazerosas, se
ressecando com o giz ou amarelando com o cigarro, sempre nos mesmos dedos.
Estratégicos. Se lembra quando eu odiava o modo como soltava a fumaça e
escorava o cigarro nos dedos, assim? Lembrei também. E depois disso não houve
dúvidas de que odiamos algumas coisas que existem em nós mesmos.
Você
nunca soube do que meus dedos um dia seriam capazes de fazer, nem eu mesma
sabia e me surpreendia com coisas novas, palavras e combinações diferentes com
todos os dez bailarinos dançando coreografias caligráficas de quem aprendeu a
lição mas adora quebrar regras e botar sentimento onde não tem. Desculpe se não
te deixo respirar com minhas sentenças longas e sem vírgulas, é que tenho a
sensação de que no papel possuo mais fôlego do que o normal, meu pulmão não
está lá essas coisas, mergulho nas tangentes e faço o que posso do modo como
não devo e só o tempo corrigirá.
Tudo
acaba sendo corrigido de alguma forma, não? O caminho que eu passava de
bicicleta feliz e não sabendo nada da vida está sendo loteado com casas, será
habitado. O caminho que cortava já não é mais caminho cortado, agora é rua com cep e tudo mais. A cidade muda e tudo muda e nada mais é pacato como antigamente.
Nem mesmo as pessoas. Nem mesmo eu tão calma. Nem mesmo meus dedos que agora
estão magros, sujos, cheios de ferida. O estranho é que sua presença é pacata e
inspira uma tranqüilidade que jamais imaginaria que pudesse vir de você, tão
agressivo e bipolar.
Minha
agressividade agora se concentra nos dedos, lutando para viver em luz lavando
palavras sujas, jogando as podres para todos os lados, e tentando se regenerar
de tanta merda escrita e de tantos apertos de mão trocados em vão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário