Eu perdi a palavra e sem ela o ponto final não existe. Ainda a sinto se movimentado dentro de mim, estava na ponta da língua, mas assustada com a sua presença, acabei engolindo antes da hora. Antes de mastigar e sentir o gosto. Antes de escrever. Fugiu como um gato preto arisco e agora anda entre os labirintos do meu ser esperando ser expelida por algum orifício, esperando ser transpirada. Se perdeu do caminho por onde veio e no mesmo só soube semear reticências infinitas.
Ando em profundo desespero sentindo a náusea aparecer e desaparecer em segundos. Feito a aparição de um clímax daquilo que está chegando, mas nunca termina. Feito um feto que anuncia nascer antes da hora. Eu quero agora. Eu quero parir essa maldita palavra.
Que não sai.
Tenho medo que em um possível aborto espontâneo ela saia monstruosa, feia, esculhambada e pela metade. Seria tarde demais, e não saberia ao menos seu sexo. Seria o fim.
Em certos momentos quero me livrar dessas palavras, mas quando as esqueço não me conformo. A verdade é que quero que todas existam dentro de mim, em minha mente, e façam sentido. Mas elas não podem, elas são muitas, são várias. Quando falta invento outras. Ah, mas essa? Parece ser insubstituível. Me faz querer viver num mundo sem palavras, enquanto mergulho entre páginas de livros, apenas para ter a ilusão da surpresa na esperança de que ela salte sobre mim, para que eu possa ver seu ínfimo e nunca mais abandoná-la no esquecimento.
Na impossibilidade e frustração do acaso, e sobretudo no desespero, tentei encontrar em minha memória o exato momento em que a ouvi pela última vez. A surpresa desagradável foi saber que ela saiu da sua boca, e que teria que refazer o diálogo em minha mente inúmeras vezes até que ouvisse novamente a palavra, a palavra, saindo da sua boca.
Mas você também parece ter esquecido. Em minha lembrança ela parece também ter fugido de você. Mas você disse. E eu não consigo ouvir novamente. A fita da memória se embola no tape quando você começa a pronunciá-la, e...
mas que inferno! Não dá para ouvir nem a primeira letra.
mas que inferno! Não dá para ouvir nem a primeira letra.
Retiro o tape da memória, giro até o início com a caneta, boto de novo pra tocar, e nada. Nada. Nada. Apenas reticências.
Mas que merda!
Merda de palavra esquecida.
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