Ela não se esquece do que ele disse por telefone há um ano e nove meses. Ela era incapaz de acreditar em tal coisa, mas sempre confiou na sorte, no amor que sentia. No que realmente valia à pena se preocupar. Ela sempre foi assim, detalhista, e não se importe em checar as datas, pois ela esteve sempre correta e sempre soube de tudo que acontecia ao seu redor. O telefonema era pra acabar com a suspeita, mas não era nada grave. Sempre admirou pessoas adultas se comportando como adultas. Embora em alguns momentos deixasse sua criança interior baixar e fazer rebuliço pela sala e pelos caminhos. Mas claro tudo por conta da ocasião. E tenha certeza, com coisa séria não se brinca nem se faz de criança pra se passar de desentendido. Atenta a tudo. Até ao que poderia jamais se preocupar. Ela não se esquece do que leu há um ano e seis meses. Coisa estranha essa da leitura. O que era pra interpretar foi superhiperinterpretado. Mas nada além da conta. Da sua conta. Ela sempre soube o que havia por debaixo das palavras e principalmente das intenções de quem as escrevia. Às vezes ela mesma fazia isso. Mas vinda dos outros era um desafio que ela tinha que ganhar. Ela se lembra das exatas palavras. Poucas palavras e poucas linhas abrem abismos intransponíveis. Nem era tão importante o que leu, nem o que ouviu faz hoje tanta diferença. Mas há exato um ano e sete meses ela teve certeza do que realmente existia. E continua tendo. A primeira impressão é a que fica. Fica o telefonema, as palavras e a impressão. O que houve, o que ouviu, o que leu foi se juntando aos poucos e às novas impressões ela pensou que não poderia ficar pior e ficou. A cada impressão suas impressões eram cada vez piores e piores. Mas está segura, sempre foi. Aquele orgulho, que não é besta, mas que traz consigo transparece hoje uma mulher sensata, porém louca. Distraída, mas do tipo que não esquece nada. Só quando quer. Por hora ela deixa essas datas, palavras, impressões e telefonemas que não usa mais guardadas num texto qualquer. Como uma roupa que não lhe serve mais esquecida no guarda-roupa, já que com certeza ninguém seria louco de usar ou costurar. Não servem pra nada.
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