sábado, 11 de fevereiro de 2012

Agora

Agora ela dança pela casa feito boba, ensaiando passos de uma dança que não foi e não será apresentada. Já está acostumada. É mais um script que decora e nunca diz, e mais um passo que se mata, se envolve, se mistura, se compõe e se dispersa no meio das coisas que não estão na sua mão. Não está ao alcance das palavras nem da sapatilha de ponta que dói tanto seus dedos que agora sente até um pouco de preguiça dessa dor. Deixa pra depois. Descalço posso sentir o chão. O meu peso sobre o chão. E talvez sentir de novo aquela sensação maravilhosa do vento tocando os pêlos do seu braço enquanto volta pra casa, enquanto na luta contra o solo tenta alcançar o movimento natural e mais perfeito, como os toques de luz que uma pessoa iluminada lhe ensinou a encontrar e fazer bom uso. O acaso não mata sua vontade de ser. Em qualquer coisa, em qualquer poesia, em qualquer palavra, ou sem palavra. Agora ela precisa de palavras, sim. Pois agora são palavras novas, assim como miragens novas que povoam sua mente tão dispersa em se encontrar. Coisa que chamam de repertório, coisa que cresce e se apossa da gente. Na verdade não era a intenção de mostrar. Na verdade dançar pra si mesmo é a melhor coisa que sabe fazer. Pra ela não existe coisa mais emocionante do que explorar os espaços de um teatro vazio. Escrever coisas que nunca publica. Se a intenção era sentir, porque sempre é o que a move, fez isso muito bem. Mergulhar nas coisas que lhe completam é o seu maior defeito e sua melhor virtude. Qualquer palavra, som ou coisa mais simples preenche o que ela sabe que já faz muito tempo não está mais vazio, mas finge o tempo todo o vazio que não sente mais só pra sentir mais e mais completa. Como o copo já cheio que derrama água por toda a toalha de mesa, que esbarra nas pessoas enquanto suga toda forma de preenchimento como goladas de um sedento em pleno deserto. Agora eu sei do vazio que Renato está cheio de sentir. Só que meu vazio está cheio de tanto querer me completar, a hora de dizer chega, a hora de dizer pare já é o suficiente. Não, menina, não abrace o mundo com seus braços pequenos em primeira posição, pois há coisas que não pode carregar,  coisas que podem cair. Embora eles estejam mais fortes e tenham se desdobrado feito um polvo desesperado e com fome, eles dançam no fundo do mar que você criou cheio de coisas necessárias. Pare. Respire. Enquanto puder carregar o peso de ser você no meio de tantas dúvidas e diversidades dance pra si só, com os olhos fechados, como se ninguém estivesse olhando. Aos poucos abra e perceba vagamente a realidade que te cerca, mas não olhe pra nada em especial, consegue abrir os olhos, olhar e não enxergar nada, ser distante? Sim, eu sei que consegue. Então vai lá e faça do jeito que sentir, do jeito que vier. Com recursos e formas que melhor se encaixarem e melhor expressarem o que tiver de ser. Uma hora você se entende. Uma hora saberá e conhecerá plenamente o que é. Enquanto isso só ouço a voz desesperada do Fredie dizendo “the show must go on” e uma chuva fina que cai enquanto eu esperava aquela que molhasse até o fundo da minha alma, pra ir pra rua e deixar que ela me queime propositalmente sem querer. Mas ela veio silenciosa e fina. Porque eu sempre espero mais das coisas.

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