A
chuva com as suas passadas apressadas de gotas tentando molhar o fundo da alma.
O som da chuva é uma das mais lindas músicas que se podem ouvir as pessoas
suaves. Tranqüilas e atentas a qualquer gotejada da água sobre o teto, sobre a
folha e sobre o corpo. Ainda não são as de março, mas essas águas vêem dizer o
que nos espera no próximo mês. É uma das épocas que mais aprecio, tirando a
primavera. Certo que nasci num dia de chuva e talvez por isso eu renasça cada
vez que me molho nas lágrimas do céu. O choverando vai e são os dias em que me
sinto mais limpa. Chuveiro nenhum no mundo pode dar essa sensação de limpeza e
vida que a chuva tocando o corpo de um homem sensível é capaz. Nos finais de
tarde sempre nos atacam voltando do trabalho, de um dia cansativo e quente. De
um dia estressante ou lento, as gotas trazem a energia que precisamos para
continuar um novo dia. Não quero falar do arco-íris que surge depois quando se
há sol. É um espetáculo a parte. Chuva lembra a vida, seu renascimento, mas
também lembra morte. Um ciclo que nunca se dissipa e que nunca erra. O nosso
também é. A idéia de que estamos aqui de passagem, usando uma roupa, uma casca.
Esse mundo não é nosso. Também é da chuva, pois ela só passa por aqui de tempos
em tempos. Quando é necessário. E sim, estamos aqui porque é necessária nossa
presença. Por mais insignificante que alguém se considere somos úteis em algum
propósito que é muito importante. Para além de escutar a chuva numa tarde de
quarta-feira. Muitas vezes não nos damos conta de quão importante é nosso
papel. E não estou falando do papel na sociedade, mas um papel na vida. Não
aquele que se interpreta e se joga pelas gavetas de scripts velhos e papéis de
jornais de apresentações passadas. Um papel muito mais importante que só cada um
de nós há de saber ou não. Quando se sabe se passa pela vida, pela terra, pela
matéria com mais tranqüilidade e sem tantas reclamações. A chuva de hoje não
veio só refrescar o calor, ou molhar sua bolsa mais linda, e seu cabelo mais
bem arrumado. Veio avisar, e sempre vem, sempre avisa que há coisas que nunca
mudam. Os ciclos nunca passam. O que
veio da água continua sendo água em estágios diferentes da matéria. O que é pó
volta a ser pó, e no meio do caminho, no meio do seu ciclo seguro lhe avisa que
há muito mais por vir. Somos tão jovens reclamando de tudo, sejam suas causas
raras, doces ou fúteis, ainda não são as verdadeiras. Há que se descobrir, por
dentro ou por fora por que estamos realmente aqui. Agora.
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