Poderia simplesmente ser. Seria. Onde coloquei minhas algemas nessa madrugada. Ficaram talvez perdidas na gaveta da cômoda. Isso incomoda. Cômodas me incomodam, pois há diversas gavetas possíveis onde encontraria a algema perdida. Preciso me amarrar. Envolver-me. Perdidamente e sem saída. Um bêbado num beco sem fim onde as estradas que ficaram pra trás o deixam rastros de motores na última potência. Fazendo deles o que ela certamente faria, se poderia. Fugir. E encontrar sabe lá o que de dignidade. Algo que prenda suas amarras, suas saias, em sua cinta já pronta quase estourando a meia. Algo que faça se sentir mais que viva. Dor é o que sente? Bom, isso já seria vida. Olhando de longe é alguém sem expressões explicáveis, sem denotações distintas, sem ter o que fazer e procura o que não quer encontrar. Mas encontra. E um dia encontra e só assim se há de terminar esse parágrafo sem fim e sem sentido. Só assim se há de ser. Se já é ou não é? Quem sou eu pra saber. Um carro para na esquina e ela entra com ar de dignidade. Quem é quem será? O ar embaça a figura de um motorista que para na porta e abre a mesma para a mesma entrar. Mas quem faz isso hoje em dia?
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