quarta-feira, 7 de março de 2012

Ela. II


Ela tem sonhado todas as noites. Sonhos distintos e psicodélicos. Sonhos loucos de pessoas loucas. Não é que acredite em sinais. Ela sabe qual sinal deve realmente acreditar e se pôr a meditar. Não são as placas do carro, os números da mesa, o placar do jogo, o ano, numerologias eternas já não fazem parte. No fundo, no fundo ela acredita em algo que não conta. É pra dar sorte diz, e não diz mais nada. Ela silencia sua boca em profundo desespero, como se qualquer letra fosse quebrar o encanto daquele momento tão cruel e oportuno. Momentos bons são cruéis para ela e isso, posso explicar caro leitor. Momentos bons lembram a ela que outros ruins surgirão. É um ciclo. Que ela não explica, mas entendem os bons ouvintes e pessoas prontas e dispostas a tentar entender. Uma noite de gargalhadas e ela sabe o que virá depois. Às vezes se arrisca e se permite, às vezes sonha e finge sorrir. Mas lá dentro d’alma sabe que sorrir demais em pleno inferno astral quer dizer muitas coisas, por isso se contem, se suborna, se flagela, suicida emoções. É o que ganha mostrando o sorriso que não sente e a face que não tem. Viver assim pra que? Não adianta. Não a querem em lugar nenhum. Só aqui. Sendo o que não é. Ou há de ser. O que importa é o dia de amanhã e suas temíveis preocupações: que máscara devo usar?

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