O que há de ser esse sonho que
nunca termina? Há semanas uma mesma cena. Mesmas portas, mesmas janelas.
Pessoas que não conheço aparecem em feições distintas reproduzidas pela retina da
minha mente em alto nível de resolução. Às vezes pessoas que não conheço, umas
são apenas por nome ou pela vaga sapiência de sua existência. Uma escada.
Pessoas gritando. Pessoas correndo. Acordei e fiquei pensando nas trilhas
sonoras, nos nomes dos atores em cena, um a um, como se só faltassem os
assentos, uma tela, e uma pipoca para que me fizessem ter a sensação de uma
sala de cinema. Uma imagem em alta definição e polegadas infinitas de mistério faz
minhas madrugadas quando durmo. É um sonho. É um sinal. Porque costumo achar
que são um sinal as coincidências repetidas, números
em placas, coisas assim. E quando acordo penso se o que é pra ser, que não é,
pode vir a ser de alguma forma. Não, não desejei esse sonho e tentei achar os
meus obscuros desejos em cada traço da fotografia do seriado que se repete a
cada dia, com novos capítulos e surtando minha paciência. A cada noite eu digo
insônia, não interrompa os estágios naturais das coisas. Eu preciso dormir,
preciso sonhar. Preciso saber o fim do que há. Preciso abrir a caixa, preciso
encontrar a chave. Preciso saber de quem são esses rostos desconhecidos que
vivem nessa casa, onde parece meu quarto, mas não é. E assim, horas me separam
de um novo capítulo, que eu guardo para lê-lo ao dormir, como a criança que
segura inocente seu volume de Reinações, esperando a hora certa de
abri-lo, de desfrutar das mais furtivas aventuras que é um sonho, se imaginando
também como seu cão que tenta abocanhar a água que sai da torneira. Um dia ele
consegue. Um dia eu consigo.
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