Depois do sono? Acordei com aquele pensamento maldoso latejando em meu corpo todo. Depois do sonho? Reli a maldosa carta que escrevi quase não me contendo de tanta raiva e me senti a pessoa mais ridícula do mundo. Não, às vezes não se pode mesmo defender a vida com palavras. Mas o outro lado é tão sujo, e eu tenho nojo de sangue alheio. Por isso me escondo aqui com minha raiva contida e meus vidros quebrados, até que minhas mãos não possam escrever mais nada.
Depois da confissão? Um alívio. De tão iludida com o mundo me surpreendi com a sinceridade dos outros. Uma surpresa boa como se tivesse acabado de descobrir o desconhecido. Mas o conhecimento gera dúvida, disse um pensador. Disse outro que a dúvida é o preço da pureza, é que é inútil ter certeza. Fiquei com a segunda, acreditando na sinceridade das tuas palavras enquanto essa mesma canção tocava. E entendi a letra. Compreendi a canção. Confiei em você como nunca.
Depois do primeiro cigarro pela manhã, o rosto ainda salgado pelas lágrimas noturnas fiz um ritual. Apaguei tudo e toda memória que me fizesse lembrar o sonho. Qualquer referência, qualquer objeto, qualquer anotação. Incumbi meu subconsciente com a ordem de reproduzir a lembrança mais calma e a música mais alegre quando essa horrenda memória se insinuasse bem ao longo, querendo fazer inferno na minha cabeça.
Sim, eu sou louca e ao longo do tempo fui encontrando defesas que fizessem meu cérebro trabalhar para o meu próprio bem, algumas vezes ele confunde tudo, daí eu reinicio e tudo fica calmo novamente.
O álbum branco do disco branco. Um papel em branco. Uma superfície reta pra desenhar as curvas de um infinito branco.
Que dois mil e doce ainda seja doce.
E será.
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