“Já tentei muitas coisas, de heroína a Jesus
Tudo que já fiz foi por vaidade
Jesus foi traído com um beijo
Davi teve um grande amigo
Não sei mais se é só questão de sorte...”
No desaniversário de suas coisas feitas há tanto tempo (tanto tempo?) quando te encontro hoje já não sei mais como comemorar (ou descomemorar?). A verdade é que Alice apareceu em meu sonho mais uma vez. Estava bem, mas sua felicidade dependia do meu sofrimento imóvel, dos meus olhos abertos parados, apenas (e ironicamente) da minha observação. Isso me desesperou. Porque sua felicidade tantas vezes me angustia e me deixa imóvel sem poder fazer nada? Porque fico lá eu sozinha, parada, admirando seu sorriso enquanto meu mundo cai, despenca e despedaça em mil palavras mudas. E eu que tantas vezes fiz o ombro amigo (amigo?), a ajuda e solução de seus tantos enigmas, diante da cena não consegui resolver entre minha felicidade e a dela. Apeguei-me, o erro vil, e me apegando errei. Ela via um espelho. Eu via uma imagem verdadeira, que não se mostrava pronta, mas cheia de falhas e reparações. Foi um trabalho longo e árduo até que ela se mostrasse ela mesma. Como pode alguém se esconder de si até de frente ao próprio espelho, me perguntei. Fui me sentindo, fui te sentindo. Vi suas indecisões, suas angústias, seus defeitos, sua felicidade (em poucas doses). Elogiava suas roupas, seu novo cabelo, seu novo vestido (porque nunca é e nunca foi o tão surrado e mesmo). Percebi também que o espelho que era eu tinha dois lados.
Em certos dias ela chegava com seu vestido mais lindo e escuro e sua maquiagem mais linda e escura, e perguntava como a rainha mais bela e escura quem era a mais bela, enquanto eu respondia em mente que não era a única. Eu também não era o único espelho e não ousava responder. Silenciava-me com minhas incertezas.
E tantos sonhos, tantos encontros e tantos enigmas, mudei. Porque Alice não seria a mesma para sempre. Fiz-me em um novo embrulho com um novo sonho e uma nova recomendação: não quebre - se quebrar faltará pedaços e nunca se verá por inteira.
Feito isso roubei uma fotografia com sua imagem mais bela e pendurei ao lado. Caso ela não volte, olharei para o canto do espelho e saberei que ainda existe (de verdade). Caso volte como eu espero perguntarei como vão os enigmas, oferecerei uma xícara de chá, mas sempre com a imagem que mais me agrada ao alcance das mãos. Apenas para que eu não sofra, para que não me angustie com a sapiência do seu eu mais verdadeiro, que só eu enxergo.
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