quem inventou foi você. Eu não agüento mais essas tuas pernas dobradas. Me dói muito, eu me deito para descansar mas sei de cor que os convidados estão retidos pela chuva, estão trocando olhares, estão completamente sapientes. Aqui nesta festa eu conheço todos, absolutamente todos, eu posso te explicar por que aquela dali se recusa (com as penas dobradas) a passar por baixo das luzes. Não insiste, não me olhe dissimuladamente, não finja mais que o fim é outro. Imaginemos que a festa transcorreu normalmente etc.; num dado momento nós perdemos o sentido do alheio; continuamos na mesma posição e era como se houvesse uma cena campestre, ou uma descida de saltimbancos pelas encostas; não sei o que fazemos dos convidados neste momento; torna-se impossível de um momento para o outro negar o nosso transe; os passageiros estão de pé, todos se voltam para nós e permanecemos imóveis porque a chuva ainda os retém; a chuva nos impede, pensamos; se a chuva na nos impedisse, sonhamos, era escuro e dentro de um trem, de um veículo qualquer que nos transportasse desta iminência; você apanhava a tesoura; eu via nos olhos dela: me matava em breve. Não era impossível mas ainda assim eu continuava a ver os passageiros, um deles enfiou a mão no bolso e te interrompeu com violência. Eu via nos olhos dela os convidados prontos, a espera do teu grito, o casaco do morto na cadeira. Na parte mais escura da sala te espalhar no solo como um bicho que se quer conhecer. Uma das convidadas não se ergue jamais. Me chama com os seus sonhos engraçados, seus pudores. Solidamente quero saber detalhes. Tenho horror da pudicícia inclinada no meu ombro, atinando com a sensação tátil da curvatura. Imagino no ar quanto se mede o teu ombro e o ombro da convidada. No ar são idênticos e indistinguíveis. Tua garra recai no veludo forte, teus olhos que eu não posso ver, tua mesma medida de ponta a ponta. Enumero. A convidada enumera como num matadouro. Abre as pernas com um sotaque que não se percebe, não percebo teu cuidado exagerado, teus dedos inverossímeis e brancos e idênticos. Enumero como num matadouro. Sou o único bovino presente. Me enumero, como o único presente, levantas um objeto na mão como numa loucura prévia. Tuas mãos prévias enganam o objeto. A convidada continua enumerando, estaria agora erguida no meio do anfiteatro aguardando o sacrifício. Refaço tuas garras de ti que nunca te ergues olhando a chuva pudicamente. Me atiro no chão com a convidada no centro desta chuva. Aguardemos o sacrifício tocando levemente nos convidados e nas suas olheiras de noite inteira sem descanso quando tua pobre pele se retrai de exaustão de tanto desviar as garras. Não nos movimentemos mais, talvez eu não veja mais as quatro patas resolvidas neste centro. Ou tenha apenas tempo de olhar a tua mão tocando o objeto rígido e o último golpe no espaço.
Ana Cristina Cesar
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